Economia e Mercado
A Selic começou a cair. O risco de crédito, não.
07 de Setembro de 2026

Depois de um longo período de aperto monetário, a redução da taxa básica de juros pode produzir uma sensação imediata de alívio. Para quem administra crédito, porém, há uma diferença importante entre o início de um ciclo de queda dos juros e a melhora efetiva da capacidade de pagamento das empresas.

Em agosto, o Copom reduziu a Selic para 14,00% ao ano. A decisão ocorreu em um cenário no qual o Banco Central identifica moderação gradual da atividade econômica, embora com resiliência e sinais diferentes entre os setores. Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permanecem acima da meta.

A direção dos juros mudou. O nível, contudo, continua elevado e essa distinção importa para a indústria.

Quando a Selic começa a cair, nem todo o estoque de dívida empresarial é imediatamente renegociado a uma taxa menor. Empresas continuam carregando operações contratadas anteriormente, capital de giro utilizado durante o período de maior aperto monetário, compromissos com fornecedores e outros passivos acumulados. Por isso, uma redução inicial dos juros pode melhorar expectativas sem produzir, na mesma velocidade, uma recuperação da liquidez.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em junho, o Brasil superou 9,1 milhões de empresas inadimplentes, maior patamar da série histórica da Serasa Experian. O volume de dívidas negativadas chegou a R$ 232,9 bilhões, e cada empresa inadimplente acumulava, em média, 7,3 compromissos em atraso. Ou seja: a política monetária começou a mudar quando uma parcela relevante das empresas já carregava os efeitos do ciclo anterior.

Diante da perspectiva de juros menores, áreas comerciais podem começar a trabalhar com uma expectativa mais otimista com maior atividade econômica, melhora gradual do consumo, crédito mais acessível e recuperação da capacidade financeira dos clientes. Essas expectativas podem se confirmar ao longo do tempo. Mas transformá-las imediatamente em aumento generalizado de limites ou flexibilização de prazos seria antecipar uma melhora que ainda precisa aparecer nos números de cada cliente.

A política de crédito não deveria responder apenas à direção da economia, deveria responder à condição financeira de quem está comprando.

Imagine dois varejistas expostos ao mesmo cenário de queda da Selic. O primeiro atravessou o período de juros elevados mantendo pontualidade, administrando estoques e preservando liquidez. O segundo passou a renegociar títulos, utilizar integralmente os limites disponíveis e alongar sistematicamente os pagamentos aos fornecedores. A redução dos juros beneficia os dois, mas, ela não torna os dois riscos equivalentes. É exatamente por isso que dados macroeconômicos precisam ser combinados com informações comportamentais.

Nos próximos meses, uma pergunta deverá ganhar importância nas mesas de crédito:

quais clientes estão efetivamente se beneficiando da melhora das condições financeiras?

A resposta poderá aparecer antes nos comportamentos do que nos balanços. Redução das prorrogações, recuperação da pontualidade, menor utilização dos limites, normalização do ciclo de compras e melhora da previsibilidade dos pagamentos são exemplos de sinais capazes de demonstrar que a recuperação está chegando à operação. Por outro lado, se os juros começam a cair e o cliente continua aumentando sua dependência de prazo, a leitura precisa ser diferente.

O que isso significa para a indústria?

O início da flexibilização monetária não deveria significar flexibilização automática da política de crédito. É um momento para diferenciar clientes que atravessaram o período de maior pressão financeira daqueles que acumularam fragilidades durante esse ciclo.

Quem fizer essa leitura poderá aproveitar a eventual recuperação econômica para crescer com clientes financeiramente mais preparados. Quem olhar apenas para a Selic poderá descobrir, tarde demais, que a taxa caiu antes do risco.


Fontes: Banco Central do Brasil – Copom e Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito; Serasa Experian – Indicador de Inadimplência das Empresas.

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