Antes de perguntar quanto crédito conceder a uma empresa, existe uma pergunta ainda mais básica: com quem, de fato, estamos negociando?
A digitalização tornou o cadastro mais rápido, escalável e conveniente. Também ampliou a quantidade de informações disponíveis para análise. Mas aumentou paralelamente a sofisticação das tentativas de fraude.
No primeiro semestre de 2026, a Serasa Experian identificou 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade em processos de cadastro e validação, crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período de 2025. O volume corresponde a uma ocorrência a cada 5,5 segundos e esteve associado a um prejuízo potencial estimado em R$ 3,77 bilhões.
O indicador não se restringe às relações de crédito B2B, mas revela algo importante para qualquer empresa que realize onboarding digital: validar cadastro tornou-se parte da gestão de risco.
Um bom score não corrige uma identidade mal validada
A análise tradicional procura responder se determinado cliente possui condições financeiras de honrar a obrigação. Mas essa análise pressupõe que a identidade, os representantes e as informações utilizadas sejam legítimos. Se essa premissa estiver errada, o restante da análise pode estar tecnicamente correto e ainda assim produzir uma decisão ruim. É por isso que fraude e crédito deixaram de ser disciplinas totalmente separadas. O risco pode surgir antes mesmo da avaliação financeira.
No B2B, fraude nem sempre significa empresa inexistente
Uma operação fraudulenta pode utilizar uma empresa verdadeira e o problema pode estar em outro ponto: um terceiro pode tentar se apresentar como representante autorizado, dados bancários podem ser alterados, endereços de entrega podem mudar repentinamente e contatos corporativos podem ser substituídos.
Uma operação pode apresentar documentação aparentemente consistente e, ainda assim, conter elementos que não combinam com o histórico da companhia.
Por isso, verificar apenas a existência do CNPJ já não resolve todo o problema.
A tecnologia também está elevando o nível do ataque
Entre as tendências observadas em 2026 estão identidades sintéticas, adulteração documental, fraude como serviço e utilização indevida de inteligência artificial. A Serasa também identificou novas abordagens destinadas a explorar até mecanismos biométricos, reforçando a necessidade de validações em múltiplas camadas.
Para a indústria B2B, isso reforça uma mudança de mentalidade: cadastro não deveria ser tratado como etapa burocrática anterior à análise de crédito. É parte da própria análise.
Comportamento também ajuda a validar identidade
Informações cadastrais precisam conversar com informações comportamentais.
Um cliente historicamente estável que repentinamente solicita: mudança de endereço de entrega; alteração dos responsáveis pela compra; substituição de dados bancários; aumento relevante do primeiro pedido após uma mudança cadastral; novos contatos fora do padrão habitual; ou condições comerciais muito diferentes das utilizadas anteriormente merece uma camada adicional de validação. Nenhuma dessas situações comprova fraude, mas mudanças relevantes de padrão são justamente o tipo de sinal que uma política de prevenção deveria investigar.
Quanto maior a pressa, maior precisa ser a disciplina
Fraudes frequentemente exploram processos excepcionais: pedido urgente; cliente importante; entrega que "não pode esperar"; alteração cadastral realizada fora do fluxo; pressão comercial por aprovação. São contextos nos quais controles podem ser flexibilizados justamente quando seriam mais necessários.
A eficiência de uma política de crédito, portanto, não deveria ser medida apenas pela velocidade da aprovação, mas também considerar a capacidade de acelerar clientes legítimos sem eliminar controles importantes.
O que isso significa para a indústria?
Uma política moderna de crédito precisa responder a duas perguntas diferentes.
A primeira: quem é esse cliente?
A segunda: qual risco financeiro ele apresenta?
Inverter essa ordem pode custar caro.
Com cadastros cada vez mais digitais e fraudes cada vez mais sofisticadas, qualidade da informação cadastral, validação de representantes e monitoramento de mudanças passam a integrar a própria governança de crédito.
Antes de avaliar a capacidade de pagamento, é preciso ter segurança sobre a identidade de quem está assumindo a obrigação.
Fontes: Serasa Experian — Mapa da Fraude 2026 e levantamentos sobre fraude de identidade.
