Brasil está entre países com maior risco em ranking global. Inovação e profissionais com olhar estratégico são cruciais para a segurança nas decisões
O Brasil é o segundo país com os maiores riscos associados em operações financeiras no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Isso é o que aponta um relatório com os resultados de uma pesquisa qualitativa realizada pela Moody’s Analytics em colaboração com 41 empresas globais.
A companhia, que atua com dados, consultoria, treinamentos e soluções em gestão de risco junto a empresas, bancos e governos, tem outro dado alarmante: aproximadamente 46 mil tipos diferentes de riscos estão mapeados no contexto de transações financeiras.
“Em monitoramentos periódicos, chegamos a identificar até 90 mil novos riscos”, comenta o diretor especialista e gerente nacional da Moody’s Analytics, Tadeu Marcon Teles.
Além disso, somando-se à inadimplência empresarial que afetou 6,52 milhões de empresas e totalizou R$ 118 bilhões em dívidas atrasadas, de acordo com a Serasa Experian, esse cenário evidencia a necessidade de estratégia na tomada de decisões de crédito no contexto B2B.
Mas quais seriam as categorias de risco a serem consideradas? Confira abaixo as 4 principais!
1 – Financeiro-administrativo
Essa categoria é, sem dúvida, a mais importante e a que recebe maior atenção nos processos de análise. A pergunta que os profissionais que estão na linha de frente da mesa de negociações de crédito precisam fazer é: tenho uma visão precisa da situação econômica do cliente?
De acordo com Teles, além da diversidade e estágios de dados, os analistas devem considerar a relevância e, principalmente, a confiabilidade das informações. “A análise financeira é um pilar, portanto, o primeiro aspecto a ser considerado. Depois, mas não menos importante, é essencial verificar a confiabilidade das informações acessadas.”
O especialista argumenta que, em casos de corporações de capital aberto, por exemplo, a constatação de veracidade é facilitada pelo fato de as informações financeiras serem públicas e com balanço auditado.
“Agora, se é uma empresa de capital fechado, cujo controle está apenas nas mãos de um único proprietário, há um ponto de risco de confiabilidade relevante na análise,” exemplifica.

2 – Mercadológico
Também é vital para a segurança na concessão de crédito considerar as nuances que diferentes nichos podem adicionar aos contextos já conhecidos nos setores de mercado em que estão inseridos.
Isso significa que um segmento pode ter excelentes perspectivas de negócios, mas um determinado nicho dentro dele ainda pode apresentar ameaças específicas, como mudanças no comportamento do consumidor final, alterações nas dinâmicas dos produtos no varejo e sazonalidade.
3 – Contexto socioambiental
Sob essa perspectiva de setores e nichos, outros aspectos podem ser validados, como questões geográficas e relacionadas a fatores climáticos.
Um exemplo trazido por Teles é a hipótese de três empresas de um mesmo segmento, sendo que duas possuem riscos agregados: uma porque tem estoque dependente das operações em um porto que apresenta desafios, outra por manter negócios em áreas de risco ambiental.
Da mesma forma, quando se identifica uma política ESG (Ambiental, Social e de Governança) muito bem estruturada e ações sólidas nesse âmbito, uma empresa apresenta um alto nível de segurança no contexto socioambiental, o que é um ponto positivo na avaliação de crédito.
4 – Regulatório
As normas e regulamentações que governam os mercados em que os clientes estão inseridos nunca devem ser desconhecidas pelos analistas de risco de crédito. Esse aspecto abrange as três categorias mencionadas anteriormente.
Isso significa que regulamentações relacionadas a aspectos socioambientais, financeiros, administrativos e setoriais podem impactar diretamente a saúde das operações.
Suponhamos o caso de uma indústria farmacêutica que enfrenta dificuldades para comercializar boa parte de seus produtos devido a impasses regulatórios. Essa situação, no mínimo, requer uma reavaliação do limite de crédito do cliente.

A inovação, além de aliada é indispensável
Considerando apenas essas quatro categorias, existem inúmeras possibilidades de riscos a serem considerados e analisados. Como gerenciar esse alto volume de dados e informações de natureza diversa?
Essa é uma das preocupações mais evidentes entre os profissionais de crédito e cobrança na atualidade. A resposta para essa pergunta é a inovação!
Coletar, analisar e gerenciar dados com recursos como big data, inteligência artificial, IoT (Internet das Coisas) e outros já é uma realidade no mercado de soluções. No entanto, essas tecnologias ainda não são amplamente adotadas nas operações de crédito das empresas.
O presidente da CISP e gestor financeiro na associada Embelleze, Adolfo Pildervasser, observa que o uso de ferramentas tecnológicas em crédito e cobrança nas indústrias ainda não é predominante, o que evidencia a necessidade de iniciar um processo de inovação em algumas empresas e amadurecer esse processo em outras.
“As associações têm desempenhado um papel importante nesse sentido e na mudança de mentalidade dos profissionais, como fazemos na CISP, que oferece a plataforma Maxxi às associadas, além de capacitação profissional por meio de webinars e encontros imersivos anuais,” diz Pildervasser.
Evolução dos analistas de crédito: de executores a estrategistas na gestão de riscos
“O valor dos dados é de grande magnitude, por isso, investir em tecnologia para mitigar riscos é essencial para o sucesso dos negócios”, afirma Teles.
No entanto, sem a experiência humana, esse valor permanece subutilizado, aumentando a margem de insegurança nas operações. “Isso ocorre porque, em um mundo repleto de dados, os analistas são os responsáveis por avaliar o que é importante e deve ser considerado.”
A gestão dos filtros de dados em plataformas e a interpretação das informações fornecidas pela tecnologia estão nas mãos dos profissionais de crédito – tanto nas equipes quanto nas lideranças. Mais do que nunca, o papel desses profissionais evoluiu de uma função operacional para um papel estratégico no processo de transformação digital.
